TARDE TRISTE
A senhora tristeza
Põe seus pés sobre a mesa
E escancara a porta
Abre-se um cinza gasoso
Inebriando e lentificando
A morta tarde sem gozo
Aguardo um estalo qualquer
Um vento sequer que me diga
A quantas o tempo anda
Qual é o algoz que comanda
Essa fúria ressentida de mulher
ABDORAL
Pare de rir de mim
Eu não tenho o mesmo corte de cabelo
Eu não uso a mesma marca de chinelo que você tem
O que é que você tem?
Eu não como as mesmas coisas que você come
Quem é que você come?
Pare de rir assim
Das meninas que passeiam seminuas nas calçadas
E que não têm mais risos, são banguelas
E dos " viados" desgraçados junto delas
Olhe na janela:
Como a vida é diferente na favela!

Foi com essas rimas pobres que o poeta suburbano se indignou com o burguês. Este não compreendeu, como não compreendem os animais que não entram na cidade com medo do mata-burro.
Ela sobe ao palco desajeitada, voz em débito, e expõe à multidão sua dor sem medida. Ele sorri sempre, como se a bíblia tivesse sido escrita por Baco. Ela mostra que , se existe beleza, também existe erosão, lacunas indecifráveis entre um gole e o dia seguinte. Ele mostra que não é necessário o belo, basta ser o que se pede, seguir o manual descrito nos outdoors , e todas as deusas sentar-se-ão a sua mesa. Ela sente na carne as humilhações de uma inquisição, apedrejada ao ponto de não querer mais negar ser herege, de preferir arder no fogo injusto e preconceituoso dos olhares politicamente corretos daqueles que se deleitam ao ver alguém ser devorado na arena por leões famintos. Ele não sofre, é amigo, benquisto, todos querem ser iguais , mesmo com seu físico disforme e ridículo.
No entanto, só ela existe. E , mesmo que neguem, ainda vive.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
Agoras há aqui
Que ainda não passaram
Minutam-se sucessivos
Quase despercebidos
E trazem luz, cheiro, som, tato e gosto
Meço as rugas de meu rosto
Temo o espelho do relógio
E ele pinga a todo tempo
Os minutos que fogem sem dizer adeus
(E o que dizer a Deus ?)
O tempo é o companheiro
Das horas de solidão
Nas paredes do banheiro
Onde está escrito meu destino
Esqueço que fui menino
Choro embaixo do chuveiro:
-O tempo é meu amigo,
O tempo é meu coveiro !
Composição: Chico Buarque
Quando eu canto, que se cuide quem não for meu irmão
O meu canto, punhalada, não conhece o perdão
Quando eu rio
Quando eu rio, rio seco como é seco o sertão
Meu sorriso é uma fenda escavada no chão
Quando eu choro
Quando eu choro é uma enchente surpreendendo o verão
É o inverno, de repente, inundando o sertão
Quando eu amo
Quando eu amo, eu devoro todo meu coração
Eu odeio, eu adoro, numa mesma oração, quando eu canto
Mamy, não quero seguir definhando sol a sol
Me leva daqui, eu quero partir requebrando rock'n roll
Nem quero saber como se dança o baião
Eu quero ligar, eu quero um lugar
Ao sol de Ipanema, cinema e televisão
Leve tarde
Nau que ferve
Arde neve
Ave carne
É carnaval

Composição: Arnaldo Antunes / Edvaldo Santana
Inspirado como um boi no pasto
Inspirado bem alimentado e casto
Inspirado como um boi sem saco
Pacato capado sem pecado
Como um boi mascando seu amido
Tudo lindo e semi-adormecido
Som macio e gosto colorido
E o vazio lotado de infinito
Inspirado e gordo como gado
Carne fresca recheando o couro
Com um olho para cada lado
Inspirado como nenhum touro
Inspirado como um boi pesado
Esperando amor no matadouro
Quando o açude rompe a barragem
E a imagem do homem se transfigura
Quando a amargura faz-se em letras
Borboletas ao vento ecoam
Gritando de dentro da alma
O vento que pulveriza
E se a dor ameniza, acalma
O poeta sem dor agoniza
06/04/07
Atrás desse frio elétrico
Só não vai quem não morreu

P.S: Aos amigos, digam que voltei!

Querem me ver feliz. Talvez assim eu já seja. Mesmo inundado em dúvidas e aflito, com pesos nos ombros e o estômago em chamas, vez por outra ando a abortar sorrisos. Uns vingam, outros não. Os que vingam me fazem tão feliz quanto ridículo. Os que morrem , ah , esses sim, me fazem pensar. Pensar que nem tudo são flores e que nem as flores são belas se não as vemos assim . A felicidade está implícita em mim até mesmo quando choro. E a tristeza acompanha inevitavelmente meus sorrisos.
Cansado como quem acaba de ser torturado
Cansado como num pós-parto
Como se com mil virgens eu tivesse dormido ontem
Como o burro que leva no lombo o mundo de quem foge
Tão cansado que nem sonho
Acabado em versos mortos
Cansado como um finado em seu feriado

"Não é por não falar em felicidade que eu não gosto de felicidade", já dizia a canção que nem é triste. Aliás, hoje não estou triste. Nem alegre. Nem poeta. Sempre transitando na fronteira, como em outra canção, na ponte que não é de ferro, nem é de concreto , nem é de cimento, é até onde vai o meu pensamento. Hoje sou puro plágio, até de mim mesmo. E no delírio de não ter idéias chego a roubar poesias. Ou melhor, ao me sentir ferido por elas, condeno o poeta a me ter como autor da obra. E o verdadeiro poeta persiste em fingir que é dor... a dor que deveras sinto.
Mate-me amanhã cedinho
Antes que o ônibus passe
Não esqueça de aguar as bromélias
Avise a tia que eu não vou
Mate-me antes do despertador tocar
E leia meu signo no jornal
Caso não seja a hora
Mate-me na quinta-feira
Pois até lá algo mudou
Algum presidente deposto
Alguma vítima libertada
Ou senão mate-me após o jornal
Para que tenhas certeza de tudo
Mas não se demore no banho
Não traga tua mãe contigo
Mate-me e não me verta lágrimas
Enrole-me naquele lençol de que gosto
Cuidado para não sujar o carpete
Não deixe o cachorro lamber
Ah, e antes de afiar o punhal
Ouça sua canção predileta
Coma aquela pizza de alho que está na geladeira
Não irei mesmo sentir teu hálito
Pois já estarei te esperando
De olhos bem fechados
E quando me cortares a jugular
Dar-te-ei meu único sorriso
E desdenharás pela última vez
Composição: Arnaldo Antunes / Paulo Tatit
é só
um som
do fim do mundo vem
até o fim de mim
aqui
assim
do fundo de um vulcão
a voz
carvão
o ar em convulsão
é só
um som
a dor de ser alguém
de longe longe vem
maré
trovão
de além de além de além
até
aqui
na voz de quem também
é só
um som
no meio da multidão
Eu falei ! Blog é uma catarse auto-mutiladora. Não sem gozos, é claro. Aliás, há uma beleza nesse sado-masoquismo virtual que é deixar suas idéias soltas na órbita terrestre, mesmo que muitos as chamem de lixo espacial. Penso às vezes em meu narcisismo de pensar fazer parar algum par de olhos ,nalgum canto recôndito do universo, para ler essas palavras escritas numa língua que só uns poucos países entendem. Ao mesmo tempo, temo que algum louco me interprete mal e me persiga até o golpe fatal que faria desse blog apenas resquícios de minha passagem nessa esfera azulada . Portanto, não me levem a sério, ó almas penadas que me rodeiam !
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