Pare de rir de mim
Eu não tenho o mesmo corte de cabelo
Eu não uso a mesma marca de chinelo que você tem
O que é que você tem?
Eu não como as mesmas coisas que você come
Quem é que você come?
Pare de rir assim
Das meninas que passeiam seminuas nas calçadas
E que não têm mais risos, são banguelas
E dos " viados" desgraçados junto delas
Olhe na janela:
Como a vida é diferente na favela!

Foi com essas rimas pobres que o poeta suburbano se indignou com o burguês. Este não compreendeu, como não compreendem os animais que não entram na cidade com medo do mata-burro.
Ela sobe ao palco desajeitada, voz em débito, e expõe à multidão sua dor sem medida. Ele sorri sempre, como se a bíblia tivesse sido escrita por Baco. Ela mostra que , se existe beleza, também existe erosão, lacunas indecifráveis entre um gole e o dia seguinte. Ele mostra que não é necessário o belo, basta ser o que se pede, seguir o manual descrito nos outdoors , e todas as deusas sentar-se-ão a sua mesa. Ela sente na carne as humilhações de uma inquisição, apedrejada ao ponto de não querer mais negar ser herege, de preferir arder no fogo injusto e preconceituoso dos olhares politicamente corretos daqueles que se deleitam ao ver alguém ser devorado na arena por leões famintos. Ele não sofre, é amigo, benquisto, todos querem ser iguais , mesmo com seu físico disforme e ridículo.
No entanto, só ela existe. E , mesmo que neguem, ainda vive.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
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