"Não é por não falar em felicidade que eu não gosto de felicidade", já dizia a canção que nem é triste. Aliás, hoje não estou triste. Nem alegre. Nem poeta. Sempre transitando na fronteira, como em outra canção, na ponte que não é de ferro, nem é de concreto , nem é de cimento, é até onde vai o meu pensamento. Hoje sou puro plágio, até de mim mesmo. E no delírio de não ter idéias chego a roubar poesias. Ou melhor, ao me sentir ferido por elas, condeno o poeta a me ter como autor da obra. E o verdadeiro poeta persiste em fingir que é dor... a dor que deveras sinto.

 

Morrer de amor

Mate-me amanhã cedinho

Antes que o ônibus passe

Não esqueça de aguar as bromélias

Avise a tia que eu não vou

Mate-me antes do despertador tocar

E leia meu signo no jornal

Caso não seja a hora

Mate-me na quinta-feira

Pois até lá algo mudou

Algum presidente deposto

Alguma vítima libertada

Ou senão mate-me após o jornal

Para que tenhas certeza de tudo

Mas não se demore no banho

Não traga tua mãe contigo

Mate-me e não  me verta lágrimas

Enrole-me naquele lençol de que gosto

Cuidado para não sujar o carpete

Não deixe o cachorro lamber

Ah, e antes de afiar o punhal

Ouça sua canção predileta

Coma aquela pizza de alho que está na geladeira

Não irei mesmo sentir teu hálito

Pois já estarei te esperando

De olhos bem fechados

E quando me cortares a jugular

Dar-te-ei meu único sorriso

E desdenharás pela última vez

 

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