Desapego
A vida vai depressa e devagar.
Mas a todo momento
penso que posso acabar.

Porque o bem da vida seria ter
mesmo no sofrimento
gosto de prazer.

Já não tenho vontade de falar
senão com árvores, vento,
estrelas, e águas do mar.

E isso pela certeza de saber
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder.

Cecília Meireles
(1901-1964)

O sábio que, em corpo terrestre, se libertou do egoísmo, habita, mesmo quando age, no céu da sua paz,(...) não tem desejos, nem induz outros a terem desejos.(Krishna)
Pra não dizer que não falei das flores

Amor Barato

Chico Buarque

Composição: Francis Hime/Chico Buarque

Eu queria ser
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Modesto

Um tipo de amor
Que é de mendigar cafuné
Que é pobre e às vezes nem é
Honesto

Pechincha de amor
Mas que eu faço tanta questão
Que se tiver precisão
Eu furto

Vem cá, meu amor
Aguenta o teu cantador
Me esquenta porque o cobertor é curto

Mas levo esse amor
Com o zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor
Que sonha

Que enfim, nosso amor
Também pode ter seu valor
Também é um tipo de flor
Que nem outro tipo de flor

Dum tipo que tem
Que não deve nada a ninguém
Que dá mais que maria-sem-vergonha

Eu queria ser
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Barato

Um tipo de amor
Que é de esfarrapar e cerzir
Que é de comer e cuspir
No prato

Mas levo esse amor
Com zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor
Que sonha

Que, enfim, nosso amor
Também pode ter seu valor
Também é um tipo de flor
Que nem outro tipo de flor

Dum tipo que tem
Que não deve nada a ninguém
Que dá mais que maria-sem-vergonha

As flores da foto são chamadas de maria-sem-vergonha, citadas na letra do Chico. Porém, parece que amores-imperfeitos são as flores da estação, como dizia outra canção. E eu aqui tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim...

Tô Tom Zé

Composição: (Tom Zé)

Tô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Desperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar

Eu tô te explicando
Prá te confundir
Eu tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminado
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Suavemente prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar

A mudança dos ídolos

É muito estranho o fato de  , depois de envelhecer, a gente achar meio ridículo alguém que antes  jurava ser genial. Pois bem, depois de ter tomado muitas garrafadas para crescer forte e inteligente, agora decidi revisar meus conceitos e cheguei as seguintes conclusões:

1) Os melhores de hoje são os piores de  antigamente.

2) Os melhores de antigamente, não existem mais hoje.

3) Tem gente que está até hoje fazendo sucesso repetindo a mesma coisa faz 30 anos .

4) Tem gente repetindo a mesma coisa faz 30 anos e nunca vai ter sucesso.

5) Quem não era chique, era brega!

6) Hoje, é chique ser brega!

E por vai... o Belchior, com aquele seu bigode mais que ultrapassado, é ainda bastante contemporâneo : ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais !!!

 

A inclusão da Bunda

Oi a todos que perpassam por essa minha catarse auto-mutiladora chamada inescrupulosamente de Blog. Estou começando a perceber, já tarde, a ausência completa de leitores tecendo comentários recentes. Bom, não que eu esperasse entrar no Top Ten, mas isso me fez pensar que, se nem os insones, os desatentos, os ociosos ou os fiscais da pedofilia não entram no meu blog, devo pensar que, em vez de blog , ele pode ter outros dois nomes:

1) Se almas penadas costumam frequentar, como antes eu supunha,  e nada postam por não terem poderes energéticos para tal (elas atravessam o teclado quando tentam digitar!), então podemos chamar isso aqui de um Centro Espírita Virtual. Nesse novo conceito, a diferença está no fato de que o medium que vos fala não ouve as almas, mas somente  fala a elas aquilo que é psicografado de seu espírito ainda encarnado.

2) Se aqui nada acontece, nada vinga, são só tempestades de areia e palavras soltas e sem direção, nada mais justo que ser chamado de Deserto Virtual, trazendo também inovações nesse conceito, visto que no deserto real ainda encontramos bichos esquisitos, camelos, escorpiões e plantas xerófitas. Aqui talvez esses seres não sobrevivam.

Bom, como tentativa de recrutar leitores , nada mais justo que me utilizar de uma estratégia de marketing infalível: adicionar a foto de uma bunda nesse espaço, mas fazendo a ressalva  de que aqui continuará sendo um ambiente familiar e higiênico, além do compromisso de sigilo total.

O fim do mundo já passou...

E eu vi...  foi num programa sensacionalista de domingo: mães chorando pelos filhos e o entrevistador correndo para falar com o anjo que tocava trombeta e não queria dar entrevista. Labaredas de fogo tomavam a tela da minha TV digital  e me deu uma vontade de tomar aquelas cervejas geladas que apareciam a todo momento , em todos os locais que filmavam. Comprei até uma churrasqueira pelo TV shopping no intervalo do Armagedon, logo antes da cena do pai matando o filho ( ou seria o filho matando pai? Eram tão jovens que pensei ser armação da emissora!).  Eu gostei muito da cena em que um furacão levantou as saias de umas modelos gostosas que saiam de uma passarela que se despedaçava. E ri muito ao ver as pessoas se assustando com os estrondos, elas caindo em tombos, verdadeiras videocassetadas! Um anjo aproveitou o momento e criou um quadro de caça-talentos . Os que perdiam recebiam uma tatuagem escrita 666 e eram lançados em brasa . Os ganhadores disputavam uma vaga no coral que ia anunciar a chegada do paraíso.

Não vejo a hora de comprar aquele canal que irá passar as melhores cenas do paraíso , 24 horas por dia!!!!

Noturno
Fagner
Composição: Graco / Caio Sílvio

O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas...

Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania
Vem mais forte...

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou...

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança...

Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu!...

"Existem muitas vozes além das nossas. Só vamos escutá-las em silêncio."

É com essa frase de algum guru oriental de nome ininteligível que convido a todos a meditar sobre essa canção do Gilberto Gil. 

O retorno da Múmia ou a volta dos que não foram

Oi a todas as almas penadas que por algum minuto de desatenção ou inércia acabaram por cair nessa minha rede. Digo que voltei a blogar... é , ainda trago comigo os esparadrapos na pele e o cheiro do sarcófago. Mas voltei.Edição 2010, revisada e ampliada. Eu voltei!!! Vejam o vídeo abaixo!

POESIA!

 

TARDE TRISTE

A senhora tristeza

Põe seus pés sobre a mesa

E escancara a porta

Abre-se um cinza gasoso

Inebriando e lentificando

A morta tarde sem gozo

 

Aguardo um estalo qualquer

Um vento sequer que me diga

A quantas o tempo anda

Qual é o algoz que comanda

Essa fúria ressentida de mulher

 

ABDORAL

CANÇÃO DESCONHECIDA

Pare de rir de mim

Eu não tenho o mesmo corte de cabelo

Eu não uso a mesma marca de chinelo que você tem

O que é que você tem?

Eu não como as mesmas coisas que você come

Quem é que você come?

 

Pare de rir assim

Das meninas que passeiam seminuas nas calçadas

E que não têm mais risos, são banguelas

E dos " viados" desgraçados junto delas

Olhe na janela:

Como a vida é diferente na favela!

Foi com essas rimas pobres que o poeta suburbano se indignou com o burguês. Este não compreendeu, como não compreendem os animais que não entram na cidade com medo do mata-burro.

 

A diferença entre Amy Winehouse e o " Baixinho da Kayser"

 

Ela sobe ao palco desajeitada, voz em débito, e expõe à multidão sua dor sem medida. Ele sorri sempre, como se a bíblia tivesse sido escrita por Baco. Ela mostra que , se existe beleza, também existe erosão, lacunas indecifráveis entre um gole e o dia seguinte. Ele mostra que não é necessário o belo, basta ser o que se pede, seguir o manual descrito nos outdoors , e todas as deusas sentar-se-ão a sua mesa. Ela sente na carne as humilhações de uma inquisição, apedrejada ao ponto de não querer mais negar ser herege, de preferir arder no fogo injusto e preconceituoso dos olhares politicamente corretos daqueles que se deleitam ao ver alguém ser devorado na arena por leões famintos. Ele não sofre, é amigo, benquisto, todos querem ser iguais , mesmo  com seu físico disforme e ridículo.

No entanto, só ela existe. E , mesmo que neguem, ainda vive.

voltei só pra dizer isso...
Versos Íntimos

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

TEMPO

Agoras há aqui

Que ainda não passaram

Minutam-se sucessivos

Quase despercebidos

E trazem luz, cheiro, som, tato e gosto

Meço as rugas de meu rosto

Temo o espelho do relógio

E ele pinga a todo tempo

Os minutos que fogem sem dizer adeus

(E o que dizer a Deus ?)

 

O tempo é o companheiro

Das horas de solidão

Nas paredes do banheiro

Onde está escrito meu destino

Esqueço que fui menino

Choro embaixo do chuveiro:

-O tempo é meu amigo,

O tempo é meu coveiro !

 

 

Baioque

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque

Quando eu canto, que se cuide quem não for meu irmão
O meu canto, punhalada, não conhece o perdão
Quando eu rio

Quando eu rio, rio seco como é seco o sertão
Meu sorriso é uma fenda escavada no chão
Quando eu choro

Quando eu choro é uma enchente surpreendendo o verão
É o inverno, de repente, inundando o sertão
Quando eu amo

Quando eu amo, eu devoro todo meu coração
Eu odeio, eu adoro, numa mesma oração, quando eu canto

Mamy, não quero seguir definhando sol a sol
Me leva daqui, eu quero partir requebrando rock'n roll

Nem quero saber como se dança o baião
Eu quero ligar, eu quero um lugar
Ao sol de Ipanema, cinema e televisão

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