A vida vai depressa e devagar. Mas a todo momento penso que posso acabar.
Porque o bem da vida seria ter mesmo no sofrimento gosto de prazer.
Já não tenho vontade de falar senão com árvores, vento, estrelas, e águas do mar.
E isso pela certeza de saber que nem ouvem meu lamento nem me podem responder.
Cecília Meireles (1901-1964)
O sábio que, em corpo terrestre, se libertou do egoísmo, habita, mesmo quando age, no céu da sua paz,(...) não tem desejos, nem induz outros a terem desejos.(Krishna)
Eu queria ser Um tipo de compositor Capaz de cantar nosso amor Modesto
Um tipo de amor Que é de mendigar cafuné Que é pobre e às vezes nem é Honesto
Pechincha de amor Mas que eu faço tanta questão Que se tiver precisão Eu furto
Vem cá, meu amor Aguenta o teu cantador Me esquenta porque o cobertor é curto
Mas levo esse amor Com o zelo de quem leva o andor Eu velo pelo meu amor Que sonha
Que enfim, nosso amor Também pode ter seu valor Também é um tipo de flor Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem Que não deve nada a ninguém Que dá mais que maria-sem-vergonha
Eu queria ser Um tipo de compositor Capaz de cantar nosso amor Barato
Um tipo de amor Que é de esfarrapar e cerzir Que é de comer e cuspir No prato
Mas levo esse amor Com zelo de quem leva o andor Eu velo pelo meu amor Que sonha
Que, enfim, nosso amor Também pode ter seu valor Também é um tipo de flor Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem Que não deve nada a ninguém Que dá mais que maria-sem-vergonha
As flores da foto são chamadas de maria-sem-vergonha, citadas na letra do Chico. Porém, parece que amores-imperfeitos são as flores da estação, como dizia outra canção. E eu aqui tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim...
Tô Tom Zé
Tô
Composição: (Tom Zé)
Tô bem de baixo prá poder subir Tô bem de cima prá poder cair Tô dividindo prá poder sobrar Desperdiçando prá poder faltar Devagarinho prá poder caber Bem de leve prá não perdoar Tô estudando prá saber ignorar Eu tô aqui comendo para vomitar
Eu tô te explicando Prá te confundir Eu tô te confundindo Prá te esclarecer Tô iluminado Prá poder cegar Tô ficando cego Prá poder guiar
Suavemente prá poder rasgar Olho fechado prá te ver melhor Com alegria prá poder chorar Desesperado prá ter paciência Carinhoso prá poder ferir Lentamente prá não atrasar Atrás da vida prá poder morrer Eu tô me despedindo prá poder voltar
A mudança dos ídolos
É muito estranho o fato de , depois de envelhecer, a gente achar meio ridículo alguém que antes jurava ser genial. Pois bem, depois de ter tomado muitas garrafadas para crescer forte e inteligente, agora decidi revisar meus conceitos e cheguei as seguintes conclusões:
1) Os melhores de hoje são os piores de antigamente.
2) Os melhores de antigamente, não existem mais hoje.
3) Tem gente que está até hoje fazendo sucesso repetindo a mesma coisa faz 30 anos .
4) Tem gente repetindo a mesma coisa faz 30 anos e nunca vai ter sucesso.
5) Quem não era chique, era brega!
6) Hoje, é chique ser brega!
E por vai... o Belchior, com aquele seu bigode mais que ultrapassado, é ainda bastante contemporâneo : ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais !!!
A inclusão da Bunda
Oi a todos que perpassam por essa minha catarse auto-mutiladora chamada inescrupulosamente de Blog. Estou começando a perceber, já tarde, a ausência completa de leitores tecendo comentários recentes. Bom, não que eu esperasse entrar no Top Ten, mas isso me fez pensar que, se nem os insones, os desatentos, os ociosos ou os fiscais da pedofilia não entram no meu blog, devo pensar que, em vez de blog , ele pode ter outros dois nomes:
1) Se almas penadas costumam frequentar, como antes eu supunha, e nada postam por não terem poderes energéticos para tal (elas atravessam o teclado quando tentam digitar!), então podemos chamar isso aqui de um Centro Espírita Virtual. Nesse novo conceito, a diferença está no fato de que o medium que vos fala não ouve as almas, mas somente fala a elas aquilo que é psicografado de seu espírito ainda encarnado.
2) Se aqui nada acontece, nada vinga, são só tempestades de areia e palavras soltas e sem direção, nada mais justo que ser chamado de Deserto Virtual, trazendo também inovações nesse conceito, visto que no deserto real ainda encontramos bichos esquisitos, camelos, escorpiões e plantas xerófitas. Aqui talvez esses seres não sobrevivam.
Bom, como tentativa de recrutar leitores , nada mais justo que me utilizar de uma estratégia de marketing infalível: adicionar a foto de uma bunda nesse espaço, mas fazendo a ressalva de que aqui continuará sendo um ambiente familiar e higiênico, além do compromisso de sigilo total.
O fim do mundo já passou...
E eu vi... foi num programa sensacionalista de domingo: mães chorando pelos filhos e o entrevistador correndo para falar com o anjo que tocava trombeta e não queria dar entrevista. Labaredas de fogo tomavam a tela da minha TV digital e me deu uma vontade de tomar aquelas cervejas geladas que apareciam a todo momento , em todos os locais que filmavam. Comprei até uma churrasqueira pelo TV shopping no intervalo do Armagedon, logo antes da cena do pai matando o filho ( ou seria o filho matando pai? Eram tão jovens que pensei ser armação da emissora!). Eu gostei muito da cena em que um furacão levantou as saias de umas modelos gostosas que saiam de uma passarela que se despedaçava. E ri muito ao ver as pessoas se assustando com os estrondos, elas caindo em tombos, verdadeiras videocassetadas! Um anjo aproveitou o momento e criou um quadro de caça-talentos . Os que perdiam recebiam uma tatuagem escrita 666 e eram lançados em brasa . Os ganhadores disputavam uma vaga no coral que ia anunciar a chegada do paraíso.
Não vejo a hora de comprar aquele canal que irá passar as melhores cenas do paraíso , 24 horas por dia!!!!
O aço dos meus olhos E o fel das minhas palavras Acalmaram meu silêncio Mas deixaram suas marcas...
Se hoje sou deserto É que eu não sabia Que as flores com o tempo Perdem a força E a ventania Vem mais forte...
Hoje só acredito No pulsar das minhas veias E aquela luz que havia Em cada ponto de partida Há muito me deixou Há muito me deixou...
Ai, Coração alado Desfolharei meus olhos Nesse escuro véu Não acredito mais No fogo ingênuo, da paixão São tantas ilusões Perdidas na lembrança...
Nessa estrada Só quem pode me seguir Sou eu! Sou eu! Sou eu!...
"Existem muitas vozes além das nossas. Só vamos escutá-las em silêncio."
É com essa frase de algum guru oriental de nome ininteligível que convido a todos a meditar sobre essa canção do Gilberto Gil.
O retorno da Múmia ou a volta dos que não foram
Oi a todas as almas penadas que por algum minuto de desatenção ou inércia acabaram por cair nessa minha rede. Digo que voltei a blogar... é , ainda trago comigo os esparadrapos na pele e o cheiro do sarcófago. Mas voltei.Edição 2010, revisada e ampliada. Eu voltei!!! Vejam o vídeo abaixo!
POESIA!
TARDE TRISTE
A senhora tristeza
Põe seus pés sobre a mesa
E escancara a porta
Abre-se um cinza gasoso
Inebriando e lentificando
A morta tarde sem gozo
Aguardo um estalo qualquer
Um vento sequer que me diga
A quantas o tempo anda
Qual é o algoz que comanda
Essa fúria ressentida de mulher
ABDORAL
CANÇÃO DESCONHECIDA
Pare de rir de mim
Eu não tenho o mesmo corte de cabelo
Eu não uso a mesma marca de chinelo que você tem
O que é que você tem?
Eu não como as mesmas coisas que você come
Quem é que você come?
Pare de rir assim
Das meninas que passeiam seminuas nas calçadas
E que não têm mais risos, são banguelas
E dos " viados" desgraçados junto delas
Olhe na janela:
Como a vida é diferente na favela!
Foi com essas rimas pobres que o poeta suburbano se indignou com o burguês. Este não compreendeu, como não compreendem os animais que não entram na cidade com medo do mata-burro.
A diferença entre Amy Winehouse e o " Baixinho da Kayser"
Ela sobe ao palco desajeitada, voz em débito, e expõe à multidão sua dor sem medida. Ele sorri sempre, como se a bíblia tivesse sido escrita por Baco. Ela mostra que , se existe beleza, também existe erosão, lacunas indecifráveis entre um gole e o dia seguinte. Ele mostra que não é necessário o belo, basta ser o que se pede, seguir o manual descrito nos outdoors , e todas as deusas sentar-se-ão a sua mesa. Ela sente na carne as humilhações de uma inquisição, apedrejada ao ponto de não querer mais negar ser herege, de preferir arder no fogo injusto e preconceituoso dos olhares politicamente corretos daqueles que se deleitam ao ver alguém ser devorado na arena por leões famintos. Ele não sofre, é amigo, benquisto, todos querem ser iguais , mesmo com seu físico disforme e ridículo.
No entanto, só ela existe. E , mesmo que neguem, ainda vive.
voltei só pra dizer isso...
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
TEMPO
Agoras há aqui
Que ainda não passaram
Minutam-se sucessivos
Quase despercebidos
E trazem luz, cheiro, som, tato e gosto
Meço as rugas de meu rosto
Temo o espelho do relógio
E ele pinga a todo tempo
Os minutos que fogem sem dizer adeus
(E o que dizer a Deus ?)
O tempo é o companheiro
Das horas de solidão
Nas paredes do banheiro
Onde está escrito meu destino
Esqueço que fui menino
Choro embaixo do chuveiro:
-O tempo é meu amigo,
O tempo é meu coveiro !
Baioque
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
Quando eu canto, que se cuide quem não for meu irmão O meu canto, punhalada, não conhece o perdão Quando eu rio
Quando eu rio, rio seco como é seco o sertão Meu sorriso é uma fenda escavada no chão Quando eu choro
Quando eu choro é uma enchente surpreendendo o verão É o inverno, de repente, inundando o sertão Quando eu amo
Quando eu amo, eu devoro todo meu coração Eu odeio, eu adoro, numa mesma oração, quando eu canto
Mamy, não quero seguir definhando sol a sol Me leva daqui, eu quero partir requebrando rock'n roll
Nem quero saber como se dança o baião Eu quero ligar, eu quero um lugar Ao sol de Ipanema, cinema e televisão